As alterações climáticas e as ideias prévias

Mónica Arto Blanco e Pablo Á. Meira Cartea
Jueves, Febrero 13, 2014

 

Foi durante o século XIX que alguns cientistas começaram a suspeitar da possível influência das emissões de CO2, originadas pelas atividades humanas, no clima da Terra. Esta suspeita converteu-se num problema central para a comunidade científica internacional na década de setenta do século passado, dando origem, em 1979, à I Conferência Mundial sobre o Clima.

Desde então, o trabalho da comunidade científica sobre a natureza das alterações climáticas e as suas consequências passou a ser um tema habitual nos meios de comunicação social, convertendo-se num dos tópicos ambientais mais reconhecidos pela opinião pública. No campo político, os esforços para prevenir e minimizar o seu impacto sobre a Humanidade convergiram na Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas. Esta Convenção foi reconhecida, por consenso, na Cimeira da Terra, em 1992, e aplicou-se através do desenvolvimento do Protocolo de Quioto. Na atualidade, encontra-se em negociação um novo acordo internacional que vem substituir o de Quioto com o objectivo de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa (GEE).

O degelo e o aumento do nível do mar aparecem nas representações gráficas de forma recorrente. É habitual desconhecer-se que a expansão térmica da água do mar, debido à subida da temperatura, também contribui para a subida do nível do mar.

Devemos ter presente que tudo o que a sociedade conhece, opina e valoriza sobre as alterações climáticas alimenta-se, necessariamente, de informações que, originadas ou não no campo da ciência, chegam às pessoas através de diferentes meios e mediadores. As fontes de informação de maior repercussão e mais comuns são os meios de comunicação convencionais, que servem como plataforma para que diferentes agentes, principalmente jornalistas e políticos, transmitam informações. Nestes discursos recolhem- se valorizações e interpretações diversas sobre a natureza e a gravidade do problema. Além destes contributos, na construção da representação social das alterações climáticas intervêm outros fatores. Podemos destacar as dificuldades da população, em geral, para integrar e processar informação —especialmente se for muito complexa do ponto de vista científico. Outro aspeto a destacar são os processos de interação social que permitem negociar, construir e partilhar com os demais um certo consenso interpretativo sobre as alterações climáticas e o seu potencial de ameaça.

Os carros, as fábricas e as centrais térmicas são identificadas como principais fontes de CO2, em detrimento de outras atividades e os GEE delas derivados.

Em contraste com outras problemáticas ambientais, cujas causas ou consequências podem ser sofridas ou percebidas «em tempo real» pelo nosso sistema sensorial (através do olfato, da visão, do tato ou da audição), as alterações climáticas são uma ameaça «abstrata», invisível, ubíqua e diferida no tempo. Como tal, só é socialmente considerada através da comunicação, da informação e da construção social de significados e interpretações partilhadas. Ainda que para muitos cientistas do clima possa parecer-lhes estranho e inquietante, do ponto de vista do senso comum, as alterações climáticas são uma construção sociocultural com fortes componentes subjetivas e intersubjetivas.

As consequências dos fenómenos meteorológicos extremos (inundações, desertificação, etc.) são habitualmente citados.

As derivações deste ponto de vista para as ações educativas e de comunicação relacionadas com as alterações climáticas são muito importantes. Devemos ter em conta que a maior parte das pessoas que venham a participar numa iniciativa deste tipo já possuem e põem em prática ideias e noções sobre o que são e o que implicam as alterações climáticas; noções e ideias que sustentam a sua representação do problema e condicionam os seus valores e atitudes em relação ao mesmo. A investigação destas representações mostra padrões redundantes que não correspondem à explicação científica e sobre as quais convém insistir:

  1. É muito comum que a destruição da camada de ozono apareça identificada como a causa principal ou única das alterações climáticas. Em coerência com esta ideia, cientificamente errónea, mas muito difundida pelo senso comum, identificam-se os gases que causam a destruição do ozono estratosférico com os que produzem as alterações climáticas. Isto acontece no caso dos CFC, mas não no CO2, metano ou outros GEE. Em geral, as pessoas que assumem esta explicação entendem, à luz do senso comum, que o buraco na camada de ozono, ao deixar penetrar mais radiação solar, é o responsável pela subida da temperatura terrestre. Na lógica que relaciona a camada de ozono com as alterações climáticas, não é estranho que se atribua a este último o aumento do cancro de pele ou se utilizem os sprays como um símbolo para representar a forma como a Humanidade altera o clima.
  2. Outro dos tópicos erróneos consiste em relacionar qualquer forma de contaminação atmosférica com as alterações climáticas. A chuva ácida, por exemplo, pode aparecer, umas vezes, como causa das alterações climáticas e, outras, como uma consequência, não sendo cientificamente correta nenhuma das duas interpretações.
  3. As representações das alterações climáticas podem aludir a elementos ou fenómenos localizados em lugares distantes como as regiões polares (iceberg, degelo, subida do nível do mar, extinção de espécies, ursos polares e pinguins) ou numa localização global (em todo o planeta). Pode confundir-se também «glaciar» com «iceberg». É menos frequente identificar as alterações climáticas e, principalmente, as suas consequências, com locais próximos da pessoa.
  4. É habitual a confusão entre tempo meteorológico e a noção de clima.
  5. As representações de seres humanos não costumam ser frequentes, isto é aparecerem de forma esporádica. No entanto, é costume representar as atividades humanas associadas às alterações climáticas através de centrais elétricas, florestas devastadas, grandes fábricas poluentes e automóveis privados. Outras atividades, como a prática de modelos agrícolas intensivos ou o consumo de alimentos importados ou fora de época, não costumam ser reconhecidas como fontes de emissões.
  6. A subida do nível do mar —uma das principais consequências das alterações climáticas, em conjunto com o aumento da temperatura— explica-se e representa- se em função do degelo e não pela expansão térmica da água devido ao aumento da temperatura.
  7. As possíveis alternativas e soluções aparecem tratadas em muito poucas representações. Quando o fazem, costumam referir-se a um menor uso de veículos privados ou a que estes sejam menos poluentes, uso da bicicleta, separação e reciclagem de resíduos ou a soluções genéricas com vista à preservação do ambiente.

As espécies de climas polares aparecem como as mais afetadas, em detrimento de outras menos mediáticas.

As representações integram elementos que provêm da ciência das alterações climáticas, mas também distorções, preconceitos e teorias implícitas, próprias do senso comum e de como este constrói um sentido, integra e interpreta «objetos» tão complexos como as alterações climáticas. Por esta razão pode ser útil explorar as ideias prévias sobre este problema tidas pelos participantes numa ação educativa, comunicativa ou informativa, que o aborde. A reflexão sobre estas conceções ou representações pode servir de base para adaptar uma visão mais ajustada ao que a ciência nos diz do problema, das ameaças que comporta e das possíveis alternativas para mitigar os seus efeitos.

*Texto extraído de Arto Blanco, M. & Meira Cartea, P.Á. (2012). Conta ao Grurb. As alterações climáitcas e as ideias prévias. En P. Á. Meira Cartea (Coord.), Conhece e valoriza as alteracçoes climáticas. Propostas para trabalhar em grupo (pp.19-26). Madrid: Fundación MAPFRE.